PROFESSANDO O BARDO DE STRATFORD-UPON-AVON
- Joel Garcia

- 27 de jan. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 31 de jan. de 2023

Todos os grandes personagens de Shakespeare parecem sofrer de um excesso de imaginação. Hamlet, ao vasculhar seu desespero por um motivo válido para cometer um crime, chega a imaginar, com horror, a vida após a morte. Otelo, com sua imaginação envenenada, transforma sua casta Desdêmona numa prostituta. A tempestade e a miséria liberam a imaginação de Lear, que começa, finalmente, a perceber suas grandes falhas. Macbeth olha para dentro de si e acompanha, horrorizado, sua própria queda, sua transformação de herói nacional e homem bom em assassino monstruoso, com uma honestidade e rigor implacáveis. Na imaginação genial de Shakespeare, a desordem e a destruição de uma civilização enferma e corrupta trazem possibilidades de um mundo inteiramente novo, talvez até melhor. - É uma possibilidade, nada mais! É Shakespeare...
Referenciais : Encontros com Shakespeare, Ron Daniels | maio/2019
Em todas as 37 peças de Shakespeare, o mundo e os personagens vão se transformando no decorrer da narrativa e, no fim, não são mais o que eram. Por isso, é importante identificar com paciência e tenacidade as várias etapas da narrativa, como se fossem os capítulos de um romance, os movimentos de uma sinfonia ou as estações numa viagem de trem. Assim, aos poucos, a enormidade da peça deixa de amedrontar e, ao analisar a ação em trechos cada vez menores, essa enormidade desaparece no entendimento específico de cada momento. A viagem parece longa, mas se faz a passos curtos.
Não há originalmente, as divisão das obras em atos e cenas, tal conhecemos outros escritores elizabetanos, Shakespeare não dividiu suas peças dessa maneira, isso foi "inventado" pelo dramaturgo inglês Nicholas Rowe ao publicar sua edição anotada de Shakespeare, em 1709.
Para o leitor de primeira viagem, pode parecer um pouco difícil identificar os momentos mais significativos da narrativa. A sugestão é marcar, por intuição, o lugar no texto em que cada etapa parece começar e onde acaba. Essas marcas são provisórias, pois podem mudar à medida que você vai se familiarizando com a peça.
Exemplifico a seguir as 05 etapas em Hamlet:
Primeira Etapa: contém as cenas em que o desespero e a angustia de Hamlet não tem direção e inclui as cenas da muralha, a coroação de Claudio, seu tio e novo rei, o casamento da rainha, sua mãe, o primeiro monólogo, a cena com Horácio e os soldados, até depois do encontro com o fantasma, com tudo o que o fantasma lhe contou, Hamlet agora tem propósito e uma terrível responsabilidade: vingar a morte do pai (FINAL DA CENA 05).
HAMLET- O mundo está fora dos eixos. Maldito azar eu ter nascido para pô-lo no lugar!
Segunda Etapa: vai até a chegada dos atores e a ideia de representar a "Ratoeira" perante o rei e a rainha. Esta sequência da chamada "loucura" de Hamlet. Louco, ou apenas fingindo, seu desgosto profundo consigo mesmo por não ter cumprido a promessa ao fantasma de seu pai é cada vez maior: faltam-lhe provas quanto à culpa do rei (FINAL DA CENA 08)
HAMLET- Preciso de provas mais concretas. É com a peça que hei de revelar a consciência do rei!
Terceira Etapa: Hamlet começa, finalmente, a agir: a reação do rei perante o assassinato do ator-rei durante a peça "A ratoeira" é a prova que lhe faltava. Hamlet não tem mais dúvidas. Ele confronta a mãe, desafia Claudio e, a caminho do exílio, se depara com o príncipe Fortinbrás. O exemplo deste jovem corajoso, que nada teme, faz Hamlet decidir que, de agora em diante, ele vai agir (FINAL DA CENA 13)
HAMLET- Ah, que a partir desse momento, Seja só de sangue o meu pensamento!
Quarta Etapa: a caminho da Inglaterra e fora de cena, Hamlet despacha seus falsos amigos Rosencrantz e Guildenstein. Em cena, que se responsabiliza pela narrativa é Laertes, que, voltando furioso da França, procura vingar a morte do seu pai Polônio. A etapa termina com a morte de sua irmã, Ofelia (FINAL DA CENA 14)
Quinta Etapa: começa com o retorno de Hamlet à Dinamarca, agora tranformado num homem de ação.
HAMLET- Pense bem. Esse rei safado matou o meu pai,
fez da minha mãe uma puta,
usurpou o trono que era meu por direito e ainda por cima,
tentou se livra de mim- você acha que, se eu o matasse,
isso iria abalar a minha consciência?
Não serei amaldiçoado por toda a eternidade se eu permitir
Que essa pústula continue a fazer o mal?
Essa sequência vai do encontro de Hamlet com o coveiro e o enterro de Ofélia até a cena do duelo final com Laertes. Arainha bebe o vinho, sabendo, talvez, que ele está envenenado, enquanto Hamlet, com o veneno também correndo fatalmente por suas veias, finalmente mata o rei/padastro. Neste momento soam os tambores e entra em cena o vitorioso Fortinbrás. Percebam como nesta divisão são cinco as etapas, e não os atos. Importa, é que, a divisão em etapas, por mais arbitrária que seja, permite o estudo das obras não como um todo enorme, talvez até de difícil "digestão", mas em sequências menores, o que facilita a sua compreensão. É Shakespeare ...
Referenciais : Encontros com Shakespeare, Ron Daniels | maio/2019
Há na obra de Shakespeare peculiaridades comuns a todas as peças.O palco passa a ser um espaço confessional. Ali, o personagem não mente. Nunca. Sempre é preciso dizer a verdade. E, durante o monólogo, o ator deve se pôr emocionalmente à inteira disposição da plateia. Não existe a menor possibilidade de se esconder.
E não!
Não há a quarta parede. Não há ilusão do "verdadeiro".
Estamos no teatro, aqui e agora! Atores e espectadores compartilhando a narrativa no mesmo espaço. Shakespeare trasncorre em cena diante do público, seja quando a ação se passa numa ilha no Caribe, no ambiente escuro de uma prisão ou na corte de um rei. O contato direto do ator com a plateia, sem pudor, medo ou constrangimento, é essencial no teatro do Bardo de Stratford-upon-Avon. Os monólogos, um olhar tão incrivelmente honesto e tão publicos dos personagens para dentro de si, confirma o fato de que todos os grandes personagens sofrem da mesma enfermidade, o excesso de imaginação. Hamlet, Macbeth, Lear, Ângelo, Otelo, Romeu, Julieta, Falstaf, Edgar, Edmundo, todos sofrem de imaginação inesgotável, rigorosa e até mesmo aterradora, que nos leva a uma percepção tão sublime quanto trágica da condição humana.
Referenciais : Encontros com Shakespeare, Ron Daniels | maio/2019




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